Crónicas Alunos

CRÓNICA: Da EPB para o CERN: relato de um percurso
Autor: Luís Correia, Aluno do Curso Técnico de Eletrónica, Automação e Comando da Escola Profissional de Braga

Todos os dias, na televisão portuguesa, nos jornais e até em esplanadas de cafés, ouvimos pessoas a queixarem-se da crise económica portuguesa e o quanto está a afetar a vida dos estudantes e o seu futuro, que cada vez parece mais incerto e sombrio. Devido a isso, cada vez mais alunos estão a abandonar a escola e a tentar procurar emprego mais cedo. Foi o meu caso, quando ainda estava no 10º ano de escolaridade, devido à insatisfação e à falta de motivação para continuar a estudar.

Então, como muitos outros jovens, fui trabalhar, deixando a escola. No entanto, apesar de estar empregado, cedo percebi a importância de fazer um curso, para poder ser alguém na vida. Algum tempo depois desta decisão, deram-me a conhecer as escolas profissionais que, na altura, me pareceram uma boa opção para prosseguir estudos e, ao mesmo tempo, fazer algo que gostava. Foi então que conheci a Escola Profissional de Braga. Visitei-a e inscrevi-me! Na altura, pareceu-me um bom investimento, quer pelo reconhecimento de ensino de qualidade e excelência, quer pelas condições que a escola oferecia (e oferece) que se apresentaram como muito atrativas (transporte pago, refeições gratuitas, ótimas instalações e equipamentos, entre muitas outras vantagens).

A minha escolha inclinou-se para o Curso Técnico de Eletrónica, Automação e Comando, o que revelou ter sido a opção mais acertada. No início do curso senti bastantes dificuldades, por toda a mudança que esta opção acarretou. Cheguei, inclusive, a questionar se seria capaz. Felizmente, com a ajuda dos professores consegui superar as dificuldades iniciais e adaptar-me bem ao tipo de ensino, ao currículo e à escola. Também os meus colegas e o bom ambiente foram importantes nessa integração.

Ao longo do meu percurso integrei vários projetos na escola, como é o caso do grupo de percussão (do qual ainda hoje faço parte), que atua em diversos espaços e iniciativas da cidade de Braga. Para além das atividades letivas, a escola (através também da associação Mais EPB) proporciona uma série de atividades extra curriculares que também contribuiu muito para a minha formação.

No 2º ano do curso tive a primeira experiência no âmbito da robótica – um projeto que a EPB acolhe há vários anos, nomeadamente através do desenho, construção e programação de um robot, e participação numa prova do FNR (Festival Nacional de Robótica). Este projeto é desenvolvido durantes as aulas e nos tempos livres. A minha turma participou também no FNR, no qual alcançámos um honroso 2º lugar e a possibilidade de participar no campeonato mundial, o RoboCup (que, sinalize-se com orgulho, no ano de 2011, a EPB conquistou o 1º lugar).

No final do 2º ano, tive a oportunidade de fazer um estágio internacional, durante um mês, na Alemanha. Ao longo desse mês, consegui melhorar o meu nível de inglês e perceber como era trabalhar num ambiente multicultural. Mais uma vez, sem o apoio da associação da escola, seria quase impossível ter realizado este estágio.

Já no 3º ano, tive de escolher um projeto para desenvolver, no âmbito da Prova de Aptidão Profissional, e foi então que decidi construir um robot para participar no FNR, que este ano decorreu em Lisboa. Inicialmente pensei em fazer um robot para uma prova júnior, no entanto, atraído pelo desafio, decidi fazer um robot para competir na Liga Sénior (com universidades). Obviamente que um projeto assim ambicioso não pode ser feito sozinho, por isso, conversei com colegas (do meu curso e de Informática) para formarmos uma equipa e desenvolver o robot com o qual participamos no FNR, obtendo o 3º lugar, entre várias universidades do país. Uma outra equipa participante da EPB conseguiu o apuramento para o RoboCup de 2013, que este ano se realiza na Holanda, o que irá possibilitar a minha participação no campeonato mundial. Para além de todas as aprendizagens e competências técnicas que este projeto permitiu desenvolver, reforçou também o sentido de equipa, responsabilidade, organização e iniciativa.

Neste último ano, estou a estagiar no departamento de Física da Universidade do Minho, onde certamente vou por em prática muito do que aprendi nestes 3 anos, e adquirir novos conhecimentos e competências.

Toda esta trajetória valeu a pena, por todas as experiências relatadas e muitas outras que vivi ao longo destes anos na EPB, de inestimável enriquecimento, que ajudaram a definir o meu percurso. Como finalista da EPB e do curso de Eletrónica, considerava que os maiores ganhos estavam conquistados. Mas a melhor notícia ainda estaria para vir… No início do ano, foi-me proposto a possibilidade de me candidatar ao CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), na Suíça. Sem grandes expectativas, por reconhecer a exigência dessa organização - um dos melhores centros do mundo, equiparando-se à Estação Espacial Europeia - e os milhares de candidaturas que seguramente recebem, concorri. Surpreendentemente fui passando nas fases propostas pelo CERN, até que chegou o dia em que recebi “o telefonema”: tinha conseguido o lugar pretendido! Vou para o CERN!

A EPB deu-me muito. E fez-me acreditar que, com esforço, dedicação e empenho, e alguma ambição é possível superarmos as nossas expetativas e conquistarmos voos mais altos.

Tudo isto, impensável quando iniciei o meu percurso, se concretizou, e faz-me ter a certeza de que a educação e formação, não sendo a única resposta, são fundamentais para inverter a situação que o nosso país atravessa. Não temos dúvidas que o povo português é dos melhores do mundo, em tantas coisas que vamos vendo destacadas nas notícias. São nessas histórias inspiradoras que nos devemos focar e não no “discurso da desgraça”.

Eis o CERNe da questão: Se eu consegui, é porque é possível! 

 

CRÓNICA: E no fim do curso?
Autor: Rui Xavier, Ex-aluno do Curso de Eletrónica 

Já lá vão sete anos desde que terminei o Curso Técnico de Eletrónica, Automação e Comando na Escola Profissional de Braga. Pouco meses faltavam para acabar o curso e na minha cabeça ainda existia uma dúvida que me embaciava o caminho a seguir no futuro - deveria continuar a estudar ou tentar o ingresso no mercado de trabalho? Com esta dúvida a tapar-me os olhos, comprei os impressos para a inscrição dos exames necessários para continuar com os estudos, preenchi-os e enfiei-os na gaveta da minha secretária. Julguei na altura ser a melhor opção, a verdade é que nunca mais de lá saíram. Já na altura se falava que era muito difícil arranjar emprego, ainda assim, confiei na instrução que me tinha sido dada nos últimos três anos na EPB, no conhecimento que tinha adquirido ao longo do curso e desejei não estar errado. Prometi a mim mesmo que nunca me iria queixar de uma escolha que não foi imposta, por isso, preferi nunca mais pensar como teria sido se tivesse tirado os impressos da gaveta. 

Procurei, então, emprego de todas as maneiras possíveis, tendo esperança que, no meio de tanto Curriculum Vitae enviado, de tanta entrevista e de tantas respostas prometidas que afinal (quase) nunca se recebem, uma delas seria a resposta que esperava e que iria contrariar todas as outras que me faziam sentir ser impossível existir emprego para um jovem, na altura, de 17 anos. Faltavam exatamente quatro dias para fazer 18 anos quando o candidato procurado fui eu. Uma empresa de instalação de alarmes arranjou o meu contacto através da EPB e ofereceu-me um emprego. Foi o meu primeiro emprego, contudo, nasceu em mim o sentimento de que apesar de ter encontrado, finalmente, um emprego, deveria continuar em busca de algo melhor, sempre com os pés bem assentes na terra, dando passos sempre seguros de maneira a que nunca voltasse a cair numa situação de desemprego. Foi então que consegui uma melhoria substancial. Um salário melhor e melhores condições de trabalho fizeram-me mudar de rumo, desta feita passei a ser operário de uma linha (ou várias) de inserção automática de componentes eletrónicos. Na verdade, as funções que aqui exercia em nada, ou quase nada, se tocavam com o que aprendi nos três anos do curso, mas ainda assim quis seguir esse caminho, não só pelo ordenado auferido mas também pela experiência que sabia que iria ganhar, pelas ideias diferentes que me fariam crescer, por um sistema de qualidade mais apertado e mais exigente que só me iria obrigar a aperfeiçoar e pelas portas que, imaginava, se pudessem abrir. Aprendi muito enquanto lá estive, fui curioso, quis saber mais, perceber o porquê, e dei por mim na manutenção com um novo contrato de trabalho. 
Nem tudo são rosas, e nem sempre tudo corre bem como desejámos e sonhámos, e algumas divergências com chefias e os seus ideais fizeram-me voltar a querer mudar de rumo. Não suporto a ideia de não gostar do meu emprego, de acordar de manhã e ver como um enorme sacrifício as horas de labor que me esperam. Não existem empregos perfeitos, mas devemos procurar algo com que nos sintamos bem e que consigamos ser felizes enquanto trabalhamos. Voltei então, dois anos mais tarde, a procurar novo emprego. As oportunidades eram menores, mas ainda assim não desanimei. O desalento pelo emprego que tinha era tal que agarrei uma oportunidade bastante diferente do que estava habituado. Um mundo completamente novo onde o meu conhecimento era quase nulo… Fui trabalhar para uma metalomecânica como operador de tornos CNC. Ao contrário do que se possa imaginar, e apesar do salário bem mais baixo, foi com muito gosto que estive neste emprego. Um emprego “pesado”, mas que me deu muito conhecimento sobre metais, suas resistências e principais características, manuseamento de instrumentos de medida como paquímetros, micrómetros e comparadores, linguagem de programação CNC, entre outras coisas. 

Dois anos mais tarde, quase por acaso, encontrei no dia anterior ao feriado municipal, um anúncio à procura de um técnico de eletrónica para a maior empresa de pesagem a nível nacional. Passei literalmente o feriado com o jornal na mão a pensar o que fazer. No dia seguinte de manhã decidi arriscar, afinal não tinha nada a perder. Liguei a marcar a entrevista que correu muito bem, pouco tempo depois estava a trabalhar nessa mesma empresa como técnico de eletrónica. É a empresa onde trabalho ainda hoje. Sinto-me muito bem cá, obtive as mais variadas e interessantes experiências, onde destaco a ida à Índia para montar um sistema de pesagem. De todas as funções que exerço nesta empresa encontro um pouco do que aprendi nas instalações de alarmes, na ligação de quadros elétricos, um pouco do operador das linhas de inserção automática e do sistema de qualidade a que estava sujeito quando agora trato dos registos dos Equipamentos de Medida e Monitorização, um pouco do operador de tornos CNC no manuseamento dos paquímetros quando faço as suas calibrações e nas alterações do programa do robô de soldadura que, na sua base, não são tão diferentes aos dos tornos. Encontro tudo isto, mas lá no fundo, a servir de base, encontro o conhecimento e o crescimento que me deram três anos numa escola que, para mim, é diferente de todas as outras em tudo, sentindo-me ainda, hoje, feliz e orgulhoso por ter estudado na Escola Profissional de Braga. Encontrei hoje também os impressos que tinha guardado na gaveta, continuo sem saber o que lhes fazer…