ESCOLA PROFISSIONAL DE BRAGA

Crónicas de ex-Alunos

RUI XAVIER, ex-aluno do curso de Eletrónica

E no fim do curso?
Já lá vão sete anos desde que terminei o Curso Técnico de Eletrónica, Automação e Comando na Escola Profissional de Braga. Pouco meses faltavam para acabar o curso e na minha cabeça ainda existia uma dúvida que me embaciava o caminho a seguir no futuro - deveria continuar a estudar ou tentar o ingresso no mercado de trabalho? Com esta dúvida a tapar-me os olhos, comprei os impressos para a inscrição dos exames necessários para continuar com os estudos, preenchi-os e enfiei-os na gaveta da minha secretária. Julguei na altura ser a melhor opção, a verdade é que nunca mais de lá saíram. Já na altura se falava que era muito difícil arranjar emprego, ainda assim, confiei na instrução que me tinha sido dada nos últimos três anos na EPB, no conhecimento que tinha adquirido ao longo do curso e desejei não estar errado. Prometi a mim mesmo que nunca me iria queixar de uma escolha que não foi imposta, por isso, preferi nunca mais pensar como teria sido se tivesse tirado os impressos da gaveta.

Procurei, então, emprego de todas as maneiras possíveis, tendo esperança que, no meio de tanto Curriculum Vitae enviado, de tanta entrevista e de tantas respostas prometidas que afinal (quase) nunca se recebem, uma delas seria a resposta que esperava e que iria contrariar todas as outras que me faziam sentir ser impossível existir emprego para um jovem, na altura, de 17 anos. Faltavam exatamente quatro dias para fazer 18 anos quando o candidato procurado fui eu. Uma empresa de instalação de alarmes arranjou o meu contacto através da EPB e ofereceu-me um emprego. Foi o meu primeiro emprego, contudo, nasceu em mim o sentimento de que apesar de ter encontrado, finalmente, um emprego, deveria continuar em busca de algo melhor, sempre com os pés bem assentes na terra, dando passos sempre seguros de maneira a que nunca voltasse a cair numa situação de desemprego. Foi então que consegui uma melhoria substancial. Um salário melhor e melhores condições de trabalho fizeram-me mudar de rumo, desta feita passei a ser operário de uma linha (ou várias) de inserção automática de componentes eletrónicos. Na verdade, as funções que aqui exercia em nada, ou quase nada, se tocavam com o que aprendi nos três anos do curso, mas ainda assim quis seguir esse caminho, não só pelo ordenado auferido mas também pela experiência que sabia que iria ganhar, pelas ideias diferentes que me fariam crescer, por um sistema de qualidade mais apertado e mais exigente que só me iria obrigar a aperfeiçoar e pelas portas que, imaginava, se pudessem abrir. Aprendi muito enquanto lá estive, fui curioso, quis saber mais, perceber o porquê, e dei por mim na manutenção com um novo contrato de trabalho. Nem tudo são rosas, e nem sempre tudo corre bem como desejámos e sonhámos, e algumas divergências com chefias e os seus ideais fizeram-me voltar a querer mudar de rumo. Não suporto a ideia de não gostar do meu emprego, de acordar de manhã e ver como um enorme sacrifício as horas de labor que me esperam. Não existem empregos perfeitos, mas devemos procurar algo com que nos sintamos bem e que consigamos ser felizes enquanto trabalhamos. Voltei então, dois anos mais tarde, a procurar novo emprego. As oportunidades eram menores, mas ainda assim não desanimei. O desalento pelo emprego que tinha era tal que agarrei uma oportunidade bastante diferente do que estava habituado. Um mundo completamente novo onde o meu conhecimento era quase nulo… Fui trabalhar para uma metalomecânica como operador de tornos CNC. Ao contrário do que se possa imaginar, e apesar do salário bem mais baixo, foi com muito gosto que estive neste emprego. Um emprego “pesado”, mas que me deu muito conhecimento sobre metais, suas resistências e principais características, manuseamento de instrumentos de medida como paquímetros, micrómetros e comparadores, linguagem de programação CNC, entre outras coisas.

Dois anos mais tarde, quase por acaso, encontrei no dia anterior ao feriado municipal, um anúncio à procura de um técnico de eletrónica para a maior empresa de pesagem a nível nacional. Passei literalmente o feriado com o jornal na mão a pensar o que fazer. No dia seguinte de manhã decidi arriscar, afinal não tinha nada a perder. Liguei a marcar a entrevista que correu muito bem, pouco tempo depois estava a trabalhar nessa mesma empresa como técnico de eletrónica. É a empresa onde trabalho ainda hoje. Sinto-me muito bem cá, obtive as mais variadas e interessantes experiências, onde destaco a ida à Índia para montar um sistema de pesagem. De todas as funções que exerço nesta empresa encontro um pouco do que aprendi nas instalações de alarmes, na ligação de quadros elétricos, um pouco do operador das linhas de inserção automática e do sistema de qualidade a que estava sujeito quando agora trato dos registos dos Equipamentos de Medida e Monitorização, um pouco do operador de tornos CNC no manuseamento dos paquímetros quando faço as suas calibrações e nas alterações do programa do robô de soldadura que, na sua base, não são tão diferentes aos dos tornos. Encontro tudo isto, mas lá no fundo, a servir de base, encontro o conhecimento e o crescimento que me deram três anos numa escola que, para mim, é diferente de todas as outras em tudo, sentindo-me ainda, hoje, feliz e orgulhoso por ter estudado na Escola Profissional de Braga. Encontrei hoje também os impressos que tinha guardado na gaveta, continuo sem saber o que lhes fazer…